A patologização do cotidiano na era dos trinta segundos

20 Jul 2026 - 14:51
A patologização do cotidiano  na era dos trinta segundos

Uma busca rápida por qualquer rede social hoje devolve dezenas de vídeos rápidos em que criadores de conteúdo apontam para o próprio rosto, acompanhados de uma lista de comportamentos ordinários.

Esquecer as chaves na mesa, perder o foco ao ler um texto longo ou sentir cansaço após uma semana exaustiva de trabalho deixaram de ser respostas naturais de um corpo sobrecarregado.

Agora, de acordo com o algoritmo, esses são sinais inequívocos de transtornos psiquiátricos estruturais, rotulados sob termos técnicos como TDAH, Burnout ou Transtorno Borderline.

O fenômeno, que tem sido chamado por profissionais de saúde mental de gourmetização do diagnóstico, apaga a fronteira fundamental entre os traços de personalidade e as psicopatologias.

Ao transformar sentimentos inerentes à experiência humana em patologias, a cultura digital promove uma medicalização desnecessária da própria existência cotidiana.

A ilusão da resposta rápida
A necessidade de pertencimento e a busca por explicações simples para insatisfações profundas impulsionam essa engrenagem.

Quando um indivíduo encontra um vídeo que associa sua procrastinação crônica ao TDAH, ocorre um duplo alívio: a culpa individual é transferida para uma disfunção química cerebral e, simultaneamente, ele passa a integrar uma comunidade virtual de acolhimento.

Essa validação imediata, contudo, cobra um preço alto. O autodiagnóstico amparado por vídeos de trinta segundos atropela a complexidade do ambiente clínico.

Um diagnóstico real exige tempo, análise do histórico de vida e exclusão de outras variáveis ambientais ou biológicas que nenhuma inteligência artificial ou algoritmo de recomendação é capaz de mapear com segurança.

Além disso, essa inflação de termos clínicos gera uma distorção grave nas prioridades de atendimento médico.

Ao mesmo tempo em que pessoas saudáveis agendam consultas obstinadas em obter receitas de psicotrópicos para problemas manejáveis com mudanças de hábito, aqueles que sofrem de transtornos severos e crônicos encontram serviços de saúde saturados e uma perda de seriedade em torno de suas reais condições.

O limite da empatia digital
A democratização do debate sobre saúde mental nas redes sociais teve seu mérito histórico ao reduzir o estigma que antes cercava a busca por ajuda terapêutica.

O problema surge quando a conscientização se converte em mercadoria e em identidade imutável.

O sofrimento psíquico legítimo corre o risco de se perder sob uma enxurrada de definições amadoras, onde a tristeza comum vira depressão clínica e o conflito amoroso vira, invariavelmente, um relacionamento com um narcisista patológico.

O desafio atual da psicologia não é mais o de fazer as pessoas falarem sobre suas mentes, mas sim o de ajudá-las a distinguir o cansaço do mundo da verdadeira patologia clínica. 

* Cristiane Fernandes é doutoranda em Psicologia da Saúde, Pedagoga e Educadora Musical 

Qual é a sua reação??

Curtir Curtir 0
Não gostei Não gostei 0
Amei Amei 0
Engraçado Engraçado 0
Uau Uau 0
Triste Triste 0
Bravo Bravo 0