5 músicas para ouvir antes de ir votar
Escutar clássicos atemporais serve como exercício de cidadania para cobrar compromisso dos governantes
A música brasileira sempre funcionou como uma crônica afiada da nossa realidade social e política.
Às vésperas de irmos às urnas, escutar certas canções serve como um exercício de cidadania: elas nos lembram das feridas históricas do país, do valor do trabalho e da necessidade de exigir compromisso real de quem assume o poder.
Selecionei cinco clássicos atemporais para ouvir antes de votar, com uma análise de suas críticas e de como as propostas e ideologias políticas podem responder a essas demandas:
1. "Construção" - Chico Buarque (1971)
A canção narra o último dia de vida de um operário da construção civil que morre ao cair do edifício em que trabalhava, "atrapalhando o tráfego" no centro da cidade.
É uma crítica profunda à desumanização do trabalhador, ao ritmo alucinante da urbanização e à mecanização da vida. O operário é tratado como uma engrenagem descartável do sistema, cujo sacrifício sequer interrompe a rotina da metrópole.
Chico trata da informalidade, da precarização do trabalho e do abismo social entre quem constrói o país e quem desfruta de suas riquezas.
2. "Até Quando Esperar" - Plebe Rude (1985)
Um clássico do rock brasiliense dos anos 80 que questiona a passividade da população diante do abandono estatal e da desigualdade social.
A letra critica a apatia popular e o abandono das periferias, questionando "até quando" as pessoas vão aceitar viver na miséria enquanto uma elite usufrui de privilégios e serviços de ponta.
A Plebe Rude expõe a dualidade das cidades brasileiras, onde o acesso a saneamento, saúde e educação de qualidade ainda depende do CEP e da renda do cidadão.
3. "Doutor" - Cidade Negra (1994)
Com o balanço marcante do reggae, a música faz uma cobrança direta às autoridades e à elite política encastelada nos gabinetes. O Cidade Negra questiona a distância entre os governantes ("doutores") e a realidade do povo.
A letra cobra responsabilidade, ética e ações concretas para resolver a fome, a falta de moradia e a violência, em vez de discursos bonitos.
"Doutor" traduz a eterna sensação de descolamento entre a classe política e as urgências do dia a dia da população vulnerável.
4. "Brasil" - Cazuza (1988)
"Brasil" é um retrato visceral da crise de identidade e da corrupção institucional no Brasil da pós-redemocratização.
Com versos marcantes como "Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim", Cazuza denuncia a impunidade, a corrupção sistêmica e o sentimento de traição que o cidadão sente em relação às instituições.
É o eco da indignação coletiva contra escândalos de corrupção, privilégios indevidos e a falta de patriotismo real por parte de quem administra o bem público. Mais atual do que nunca.
5. "Querelas do Brasil" - Elis Regina (1978)
Uma exaltação à riqueza cultural e à diversidade do Brasil profundo, em contraste com a alienação e o desprezo pelas raízes nacionais.
A canção opõe o "Brasil do Brasil" (o povo, a cultura popular, o folclore, a brasilidade autêntica) ao "Brasil oficial" que tenta imitar padrões estrangeiros e ignora as suas próprias riquezas e identidades regionais.
"Querelas..." lembra que a verdadeira força do país está no seu povo, na sua biodiversidade, na sua cultura e na necessidade de valorizar a identidade nacional frente à marginalização das tradições locais.
A sequência de palavras de origem indígena que passou a ser usada no vocabulário brasileiro é simplesmente genial.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade. E-mail: joaogabrielpcf@gmail.com
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