Young Gods, crônica de um show que perdi

O jornalista Daniel Souza Luz escreve crônica sobre uma apresentação da banda Young Gods

Disse tanto que ia ao show do Young Gods na Virada Cultural de 2016 em São Paulo e não fui. O show deles seria junto com a Nação Zumbi.

Mistura insólita, uma banda industrial suíça que representava a vanguarda dos anos oitenta com uma banda mangue beat pernambucana que despontou nos anos noventa, com o saudoso Chico Science. Quando mencionava o show para quem conhece ambas as bandas as reações eram de completa surpresa.

Surpreendente é, mas não fiquei atônito. Franz Treichler, o vocalista do Young Gods, morava no Brasil no fim do século passado (talvez ainda more, não sei). Lembro-me bem de uma entrevista dele para o Fábio Massari à época, no Lado B da MTV, na qual ele falava sobre isso – em bom português; fora engano, o pai dele era piracicabano. Uma banda lendária, que queria demais ver.

A Virada Cultural de 2016, para mim, foi principalmente barulho – mas diferente do dos Young Gods – e alguma psicodelia. Começou no sábado à noite com um show de grindcore num evento independente, pago, numa casa de shows under-ground (literalmente, o palco fica no subsolo) chamada Morfeus.

Lá encontrei dois amigos de Bauru, o Jeferson Tarzia e o Célio Roberto, conheci um poços-caldense que se tornou um amigo, o Raul Frezza, e vi bandas com nomes sugestivos como Xico Picadinho e principalmente o Facada, banda cearense de grind, possivelmente a melhor no estilo no país.

Assisti de pertinho e poguei muito, ou seja, diversão total para mim. Não bastassem o ótimo material deles, tocaram uma versão de uma das minhas músicas favoritas do Bad Brains, Sailin’ On, a qual acompanhei cantando a plenos pulmões. No dia seguinte, devido a isso, fiquei rouco – felizmente rouco.

Eu só havia visto uns poucos shows no famoso palco Test, em 2013 (quando ele era um evento clandestino de rua paralelo à Virada, totalmente independente) e em 2015, quando uma banda de hardcore de outro amigo de Bauru, o Birão Spoldari, chamada Sociopata, tocou na hora do almoço.

Em 2016 finalmente pude ver muitas bandas de grind/noise/hardcore de uma vez só – um segundo show do Facada na mesma noite, Rakta (já havia visto dois shows delas no passado, gosto muito; desta vez foi sem guitarra e com um cara na bateria), RG Noise City, Miazzo, uma banda engraçada chamada Os Capial – de Araraquara, vestidos como caipiras estereotipados, mas deixando claro que não era por desprezo à cultura caipira – e vários pedaços de shows, inclusive do Into The End, cujo guitarrista é meu amigo bauruense Jeferson.

Um dos melhores fatos da noite foi que o palco Test, incorporado à Virada, mudou de lugar e voltou a ser perto do palco Rio Branco. Não queria andar para longe e correr o risco de ser assaltado. Então finalmente pude ver um show de uma de minhas bandas brasileiras favoritas, o Violeta de Outono, no Rio Branco.

É uma clássica banda pós punk dos anos oitenta, única, com influências de psicodelismo e do rock progressivo – elementos estranhos às bandas do estilo. Não tocaram músicas oitentistas, só uma de uma fase intermediária. As músicas novas são muito voltadas ao progressivo. Tudo bem, não pararam no tempo. As belas melodias viajantes eram quase diametralmente o oposto de tudo que vi naquela noite.

Mas dormi em pé – e isso não é figura de linguagem. O que não deixou de ser uma experiência única, pois comecei a sonhar de pé e vi uma mulher subir no palco e correr em direção à banda. Não havia mulher alguma, despertei em segundos, assustado por ter dormido daquele jeito, e fiquei olhando extático para o palco. Só os músicos estavam tocando, óbvio, sem incidentes. Não é todo mundo que tem direito a ter uma experiência psicodélica sem usar drogas – e eu tive!

Depois de vagar algum tempo vendo mais bandas de barulho, barulho e barulho, já estava quase dormindo de novo. Então, já de dia, lá pelas sete da manhã, começou o show do D.E.R., uma banda da qual gosto bastante. Como nada estava me tirando do estado meio zumbi, não esperava muita coisa do show deles. Ledo engano. Foi só o show deles começar que eu despertei. Uma injeção de adrenalina! Ao vivo, na minha cara.

Uma pancadaria impressionante – e se digo que é impressionante, podem ter certeza que foi, pois tinha visto inúmeras ao longo da noite e não era para estar impressionado. Antes do show do D.E.R. terminar meus amigos que estavam comigo, Felipe Sartoris e Isabella Cantelles, pediram arrego e olha que quem ama mesmo grindcore são eles – eu só gosto muito, mas estava empolgadíssimo, apesar de ter mais do que o dobro da idade deles.

Eles são muito jovens, não sabiam andar em São Paulo, nem andar de metrô. Tive que levá-los à rodoviária. Chegando lá, achei que resistiria e voltaria para a Virada. Dei uma de ateu e deixei de acreditar nos Jovens Deuses. Deixei-me vencer pelo cansaço, comprei a passagem de volta e dormi. Satisfeito.

* Daniel Souza Luz é jornalista e revisor. E-mail: [email protected]