Relações humanas: por que é tão difícil?

A psicanalista Roberta Ecleide fala sobre a dificuldade das pessoas conviverem entre si

Parece ser um consenso que viver é (talvez) fácil, mas conviver (viver com os outros humanos) é certamente difícil. Por que? Não pretendendo esgotar a questão, seria importante delinearmos alguns aspectos.

O ser humano, é também sabido, nasce sempre “novo”. Ou seja, cada um de nós, desde que o mundo é mundo, nasce sabendo exatamente nada acerca da própria sobrevivência, de si mesmo ou do que o cerca (pessoas ou coisas).

Nascemos desprogramados, sem garantia, sem previsão. Além disso, chegamos todos atrasados quanto à geração de nossos progenitores – em função de nossa reprodução depender de uma maturação biológica específica, em idade sempre posterior ao nascimento em pelo menos uma década.

Para nos tornarmos humanos, portanto, é preciso que sejamos cuidados e ensinados cotidianamente. Nossa deficiência instintual, porém, é a condição de sermos capazes de reapresentar o mundo dentro de nós, através das ideias e das representações das sensações. É a condição mesma da linguagem. O problema é que a cada um humano, um novo universo de ideias e de representações.

Mesmo falando bastante, buscando inúmeras formas de explicação, ainda assim, cada um é um. Em tempos absurdamente midiáticos, que parametrizam nosso cotidiano, as ideias de relações harmônicas, tranquilas e perenemente estáveis fazem com que os desacertos e os desencontros sejam absurdos e consequência de patologias ou franca maluquice!

Humanos erram e têm defeitos. Como nenhum humano está excluído desta dura realidade, esperar do outro que ele não é ou de si mesmos abre a chance das discussões infindas. Tolerar as imperfeições antes de aceitá-las, manejar as impropriedades e os limites é fundamental para algum relacionamento viável.

A dificuldade das relações humanas está em aceitar que “conviver e difícil” e não se aprende a conviver, mas a tolerar melhor as dificuldades de viver com os outros, tão diversos e limitados quanto nós. Na época atual, que alguns chamam de pós-moderna, a convivência está desvalorizada, pelas dificuldades que traz e elegem-se as perspectivas virtuais como solução… Ledo engano, porém.

Na distância do teclado, perdemos um tanto do atrito que nos lapida e reconstrói. Não é fácil ficar junto, mas carece mais a distância. Em famoso aplicativo delivery, o recado é “nem precisa falar com ninguém” – em tom de orgulho! Mas “é conversando que a gente se entende” – tanto nos entendemos a nós mesmos como entendemos os outros.

É possível conviver melhor? Sim. Mas isso é uma construção viabilizada, miudinhamente a cada dia, pela compreensão e a paciência. Ou, na distância e desconhecimento, incitamos a intolerância e a violência… Estamos dispostos e disponíveis ao conviver?

* Roberta Ecleide é coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Educação (NEPE) e psicanalista. E-mail: [email protected]