Presságios de Um Crime é mais do mesmo

Jornalista do JC analisa o filme estrelado por Anthony Hopkins

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O diretor do Jornal da Cidade, o jornalista João Gabriel Pinheiro Chagas Freitas, escreve sobre “Presságios de Um Crime”, estrelado por Anthony Hopkins, consagrado por Hannibal Lecter.

Antes de 1991, o grande serial killer do cinema americano era Norman Bates, de “Psicose” (1960). O dono do Bates Motel era um personagem sanguinário, que não hesitava em matar caso houvesse necessidade, o que chegou a assustar algumas gerações.

Neste meio tempo, surgiram outros personagens ainda mais psicóticos e assustadores, como Leatherface (“O Massacre da Serra Elétrica), Freddy Kruegger (“A Hora do Pesadelo”), Michael Myers (“Halloween”) e Jason Voorhees (“Sexta-feira 13”), todos eles frutos do realismo fantástico.

Nenhum grande psicopata com um pé na vida real surgiu desde então, tanto é que se tentou emplacar Norman Bates em sequências fracassadas de “Psicose”. Até que o mundo foi apresentado a Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) em “O Silêncio dos Inocentes” (1991). Deve-se desconsiderar “Caçador de Assassinos” (1986), com o personagem, mas não com o mesmo ator. Pode-se dizer que “O Silêncio dos Inocentes” foi o marco zero dos tempos atuais do formato de filme de seriais killers.

“O Silêncio…” é praticamente o criador de um sub-gênero policial moderno, o de assassinos em série. Assim, “Presságios de Um Crime” (2016) bebe da fonte e tenta reciclar a fórmula, de maneira a se apresentar diferente de tudo o que já se viu.

Hopkins (à esquerda), como o médium que ajuda os agentes do FBI
Hopkins (à direita), como o médium que ajuda os agentes do FBI

A interpretação arrebatadora de Hopkins naquele filme lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator e um lugar cativo como ícone da cultura pop. O ator ainda fez dezenas de filmes até então, mas o canibal acabou marcando a sua carreira e passou de servir de parâmetro para qualquer filme, ainda mais com temática policial.

De novo, Anthony Hopkins está de volta em um filme de cão e gato entre o FBI e um serial killer, neste “Presságios de um Crime”, mas desta vez, do outro lado. Ao contrário do vilão carismático que o consagrou, aqui, Hopkins interpreta um personagem frio, quase calculista e que não comove ou sensibiliza, mesmo em uma posição de heroísmo.

O primeiro ato é promissor, mesmo com alguns clichês manjados do sub-gênero, citando em especial, o agente do FBI (Jeffrey Dean Morgan) cheio de dilemas familiares e existenciais, como convém, tentando convencer alguém de fora do meio a ajudar na resolução do caso, que resiste e depois aceita. O parceiro relutante com a ajuda externa também é um clichê facilmente identificável com outras obras do tipo.

O que parece improvável é o fato do auxílio vir de um médium (Hopkins) que já ajudou o policial em outras situações. Não se tem notícia, na vida real, de uma pessoa com clarividência, que tenha ajudado a polícia a resolver crimes de forma regular. É uma invencionice que pode deixar o espectador desconfiado. E deixa. No cinema, podemos citar “Minority Reporter” (2002), que se passa em um futuro onde não há crimes, simplesmente porque alguém previu que eles iriam acontecer.

No entanto, as mortes que são apresentadas durante este primeiro ato de “Presságios…” mostram um clima sombrio e misterioso, que chegam a prender a atenção do espectador, até porque o médium inicialmente se mostra reticente e ambíguo sobre o caso e o assassino. Os enigmas indecifráveis tornam a trama atraente aos fãs. À medida em que os corpos vão surgindo e o mistério aumenta por falta de pistas concretas, o filme consegue se tornar mais interessante.

O roteiro trabalha bem o fato do médium parecer saber de alguma coisa, mas nunca revelar as suspeitas de forma objetiva. Porém, a coisa começa a degringolar a partir do momento em que entramos no segundo ato, quando os produtores acharam que era preciso fazer com que Hopkins passasse da função de coadjuvante para de protagonista.

A cena do cerco policial caracteriza este momento. Ela é extremamente tensa e segura bem o interesse, com câmeras bem posicionadas que fazem com que a atenção não se disperse, até chegar no anticlímax que decepciona ao tentar criar uma reviravolta ainda no meio do filme. Mesmo que a sinopse revele os elementos do confronto, convém, aqui, não especificar. Não é surpresa, mas prefiro até nem citar o nome do astro que interpreta o antagonista, a fim de manter o suspense de quem for assistir o filme às cegas.

O ato final se torna maçante e muito confuso. É preciso uma atenção enorme para acompanhar e entender o diálogo nada convencional entre os adversários. A motivação do serial killer para os crimes parece simplesmente uma tentativa barata de humanizá-lo. Pode até conseguir, mas não convence, de tão improvável que é. Também aqui, se entende o uso, talvez excessivo, de flashbacks usados desde o início do filme, citando como uma das referências, entre várias, “Os Doze Macacos” (1995).

O filme se arrasta muito até o final, tornando-se cansativo, pois já se sabe de antemão o que irá acontecer. Enfim, é um filme que começa bem, mas que se perder em meio aos clichês típicos do sub-gênero.

* Jornalista e diretor do Jornal da Cidade. E-mail: joaogabrielpcf@gmail.com

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