Festa de aniversário

O jornalista Daniel Souza Luz escreve crônica em que relembra uma festa de aniversário nos anos 1980

O jornalista Daniel Souza Luz escreve crônica em que relembra uma festa de aniversário nos anos 1980.

Era meu aniversário de oito anos. Estava na escola. Não via sentido nisso. Não era justo. Era meu aniversário! Devia estar em casa assistindo desenho animado na televisão ou jogando futebol de botão, ou mesmo futebol de verdade, com meu irmão. Minha irmã ainda era bebê.

Estudava no Instituto Educacional São da Escócia. Sabia que o aniversário dos meus colegas de sala eram comemorados durante a aula mesmo; afinal, eu também participava. Coitados daqueles cujos aniversários caíam no final de semana. Mas a aula avançava e percebi que havia sido esquecido.

Se tivesse festinha, seria mais no começo da tarde, e nada feito, no meu caso. A aula parou. Entraram com um bolo de aniversário e chamaram até o meu irmão para vir na minha sala! Não há nada mais encanta-dor para uma criança, ao menos para a que eu era, que fazer uma sala de aula parar para uma festinha.

Basta dizer que nunca mais vi isso acontecer. Foi a minha última festa de aniversário nos anos oitenta. Lembro-me das garrafas de guaraná, que eram de um marrom muito escuro, se a memória não as transfigurou nisto. Dos cachorros-quentes com o perigosíssimo molho, sempre ameaçando cair no uniforme branco, lambuzando-o.

Principalmente, da alegria geral, pela qual me senti responsável, o que muito me satisfez. Não houve mais no colégio estas festas só para um(a) estudante, ou ao menos nas séries vindouras. Minha mãe e meu pai depois só me davam presentes e boa. Era para escolher entre festa e presente; sempre ficava com o último. A próxima festa de aniversário que tive foi uns vinte anos depois. Mas aquela de 1982 me bastou estes anos todos.

* Daniel Souza Luz é jornalista e revisor. E-mail: [email protected]