Au Pairs, crônica de uma infância feliz

O jornalista Daniel Souza Luz escreve crônica sobre as babás que conviveram com ele na adolescência

O jornalista Daniel Souza Luz escreve crônica onde relembra os tempos de adolescência e as babás que conviveram com ele no período.

Quando meus pais estavam na faculdade, em meados dos anos oitenta, uma moça ainda adolescente fazia o papel de babá. Era só eles saírem e ela pegava o telefone para passar trote em algum tonto.

Havia uma linha de disque-amizade, os mais velhos se lembram, na qual se podia falar com qualquer um que estivesse “online”. Deu sujeira, vinha uma conta cara. Depois disso, ela começou a ligar a esmo e passar cantadas vagabundas em qualquer trouxa que acreditasse.

A cara de pau marcava encontros nos quais não ia e nem pretendia. O dia mais massa foi quando ela conseguiu convencer um fulano de que era rica. Ela pediu para eu e meus irmãos pegarmos um balde e o enchermos d’água. Feito isso, ela espalmava a mão n’água e falava que estava mergulhando na piscina. Morríamos de rir.

Essa aí não durou muito, era muito desajuizada. Consta que casou com um fazendeiro rico duma cidadezinha da região; ao menos foi o que me disseram, quando perguntei dela, muitos anos atrás. Deve ter uma piscina de verdade agora. Depois dela houve uma moça muito gente fina e mais esperta.

Creio que neste caso posso citar o nome: Fátima. Dela infelizmente não sei mais nada. Telefone nos anos oitenta era algo muito, muito sério, do qual ela mantinha distância. Depois que meus pais já haviam saído para a aula a Fátima ainda aguardava um pouco. Assim que estava limpo, íamos todos para a rua, nas noites quentes.

Ela sentava na porta do prédio e ficava trocando ideia com as minhas vizinhas que já eram adolescentes. Suponho que predominantemente sobre garotos, nunca prestei atenção às conversas. Minha rua virava uma bagunça danada; as demais crianças do entorno se concentravam ali. Das sete e pouco da noite até pouco antes das dez era lotada de criança zoando no talo.

Futebol, pega-pega, bicicleta, peteca e tudo mais o que podíamos imaginar, desde que não nos afastássemos muito. Não sei como nenhum vizinho não nos dedurou a nossos pais. Acho que ali, na rua Platina da minha infância, todo mundo mais velho era como sou agora com relação à molecada do meu bairro: se há crianças implodindo a rua à noite de tanto brincar posso dormir sossegado, pois estou num lugar muito seguro.

* Daniel Souza Luz é jornalista e revisor. E-mail: [email protected]