Aprendiz sem cheiro

O jornalista Daniel Souza Luz escreve crônica em que se lembra do primeiro beijo.

Lembro-me calorosamente do meu primeiro beijo. Foi em 1985 ou, no mais tardar, em 1986. Ela era bem mais velha, mas ainda adolescente, e com apreço por usar uns decotes que me fascinavam.

À época havia uma novela global que tinha como protagonista um estilista que durante a trama lançou um batom chamado Boka Loka. O tal do batom tornaria irresistível quem o usasse, fazendo quem estava por perto querer beijar a pessoa a qualquer custo.

Talvez o capítulo final de O Perfume, História de um Assassino, do escritor alemão Patrick Süskind, tenha sido a gênese desta ideia do batom sedutor, ocorre-me agora. Afinal o livro foi lançado naquele ano e tornou-se um best-seller. Li-o inclusive duas vezes, mas já neste século, atiçado pela descoberta de que a letra de Scentless Apprentice, do Nirvana, cita quase ipsis litteris algumas frases da obra.

Enfim, eu tinha entre dez anos e onze anos. Ela tinha quinze ou dezesseis. Não declinarei o nome, até onde sei é hoje uma senhora bem-casada em outra cidade, mas o fato é que ela me passou o batom e me beijou até tirá-lo. A língua tinha um gosto diferente e apetitoso.

Se ela tivesse lido O Perfume talvez invocasse em me perfumar e ir além de um beijo. Mas está valendo, foi só isso e foi muito bom. O batom foi lançado de verdade, anos depois, parece que até fizeram uma nova versão da novela, mas tenho certeza de que não teria o mesmo gosto.

* Daniel Souza Luz é jornalista e escritor. E-mail: [email protected]