Afinal, o que é ser normal?

Lucas Rafael Chianello presta sua homenagem a Kajany César Moreira dos Santos

O advogado e jornalista Lucas Rafael Chianello presta sua homenagem ao professor aposentado Kajany César Moreira dos Santos, assassinado no fim de semana.

Nós, poços-caldenses, estamos chocados com a bárbara morte do camarada Kajany César Moreira dos Santos. O mesmo Kajany que me abordou na rua dias atrás: “Tenho lido o teu “Brog” Chianéllico. Aqui, você está parecendo muito com o Dom Quixote!” Como se sabe, ele tinha problemas psiquiátricos.

Quando eu tinha 11 anos, passei um final de semana na casa da minha tia. Nem eu e nem minha família nos atentamos a arrumar roupas para mim e num sábado de manhã fui com meu padrinho e meu tio recepcionar uma vinda do Patrus Ananias a Poços de Caldas (MG).

Depois de sua chegada no aeroporto e uma fala na Câmara Municipal, o levamos para almoçar no restaurante da represa Saturnino de Brito, antes dele seguir viagem para Andradas (MG). No final do almoço, um moreno de cabelos longos, com camiseta regata branca, short e tênis, numa bicicleta de marcha mais antiga, chegou no local.Quis mostrar a todos meus dotes de menino que brincava na rua de casa e pedi para andar na bicicleta.

Dei uma volta, mostrei aos poucos petistas que ainda estavam ali que sabia pedalar e quando fui descer, ele me segurou para que eu não caísse. Passaram-se os anos e quando eu já era maior de idade voltei a rever esse moço. Estávamos no escritório do mandato da Tita para a campanha municipal de 2004.

Enquanto separávamos santinhos e eu pedia votos para o meu pai, o Mateus Zani tinha arrumado uma TV para vermos os Jogos Olímpicos de Atenas. Até que o moço da bicicleta chegou lá e sem cumprimentar os presentes começou a frisar em alto e bom tom, com seu vozeirão grave, que não tinha acordo com narcotraficante.

Fiquei sem entender e passados alguns minutos, ele veio me perguntar o que estávamos assistindo na televisão. Quando respondi que eram os Jogos Olímpicos, ele disse que tinha sido integrante da equipe brasileira de natação em 1980, em Moscou, e que os russos ao redor do estádio Lênin estavam eufóricos com as Olimpíadas.

E voltou a dizer que não tinha acordo com narcotraficante. Meu pai, naquela campanha, fez algo que jamais vi em qualquer outra cidade do Brasil: um comitê coletivo de candidatas e candidatos a vereadora e vereador: Josué, Ana Carolina, Cléber Jáculo, a Dalvinha e a Lau também utilizaram o comitê, na antiga academia Bien Hoo.

Pouco antes, onde hoje funciona cursinhos preparatórios de concursos públicos, estava instalado o comitê da candidatura majoritária do Paulo Tadeu. Fiz amizade com muitas pessoas que trabalharam na campanha e num daqueles dias reencontrei o rapaz que tinha ido no comitê da Tita dizer que não tinha acordo com narcotraficante e que foi a Moscou em 1980. Ele estava com um livro:

– O que é isso, filosofia oriental?

– Não, meu fiiii. Isso aqui é “porrada orientar, memo”!

Até que uma senhorinha começou a provocá-lo, dizendo que ele deveria ser internado, e dava tapas na cabeça dele. Fiquei com medo de como ele reagiria, até que ele começou a contar:

– “Essas véia lá da zona sur são tudo frustrada. Quando construiu o aeroporto, elas tava construindo as casa dela e ficava tudo puta porque os avião passava, disteiava e elas num tinha onde iscondê quando chuvia”… hahahahahahahahahahaha!

Geralmente imaginamos que alguém com problemas psiquiátricos reagiria a provocações e tapas na cabeça, mais especificamente na coroinha da careca, com violência.

O Kajany, afastado de nós por nós mesmos, respondeu com humor e deboche. Como cantava Belchior em Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum: “Que a Terra lhe seja leve.”

* Lucas Rafael Chianello é advogado e jornalista. E-mail: [email protected]